Já lá dizia o poeta: "Art is no excuse for boring
people"!
Se calhar quem dizia isto não era um poeta, mas lembro-me que falava inglês. E quase posso apostar, devia ser norte-americano. Eles sabem melhor do que ninguém, que a arte, seja a pintura, a literatura, a música ou o cinema, não precisa de dar grandes respostas sobre o sentido da vida, nem de uma história surpreendente, a única coisa que se pede a um bom artista, é para não entediar as pessoas. Tudo se desculpa, cenas chocantes, temas tabus, pura parvoíce, o que quiserem. O que não se aceita é pregar uma grande seca às pessoas.
Se calhar quem dizia isto não era um poeta, mas lembro-me que falava inglês. E quase posso apostar, devia ser norte-americano. Eles sabem melhor do que ninguém, que a arte, seja a pintura, a literatura, a música ou o cinema, não precisa de dar grandes respostas sobre o sentido da vida, nem de uma história surpreendente, a única coisa que se pede a um bom artista, é para não entediar as pessoas. Tudo se desculpa, cenas chocantes, temas tabus, pura parvoíce, o que quiserem. O que não se aceita é pregar uma grande seca às pessoas.
O cinema português precisa, urgentemente, de alguém que
entenda isto. Perdi a conta das vezes que saí frustrada de uma sala de cinema,
por causa de um português. Durante muitos anos até me escondia debaixo da cama, de cada vez que ouvia as palavras cinema e português na mesma frase. Ou o filme
tem uma boa história e está mal representado ou os actores são muito bons e a
história é uma pasmaceira.
Já nem falo daqueles casos, em que não entendes nada da
história que o filme tenta contar. Isso não é necessariamente mau. Nunca
percebi nenhum dos filmes do David Lynch, mas também nunca olhei para o relógio
a meio de um deles a pensar: “Quando é que esta merda acaba?!”
Podes não entender nada do filme, mas ficas ali agarrado até ao fim, na esperança de entender. E quando o filme acaba sentes pena, porque achaste que desta vez é que era, ias mesmo entender um filme do David Lynch, mas não.
Podes não entender nada do filme, mas ficas ali agarrado até ao fim, na esperança de entender. E quando o filme acaba sentes pena, porque achaste que desta vez é que era, ias mesmo entender um filme do David Lynch, mas não.
Uma vez fui ao cinema com a gorda e um amigo que adora o David Lynch, para ver o Inland Empire.
Estávamos os três no cinema e quando aparece aquela cena dos homens vestidos de
coelho, a gorda, com um ar assustado, pergunta-me: “Estás a perceber isto?!” – E eu olhei para ela,
com o meu ar mais snob e disse bem alto no meio do cinema: “A sério!!! Não tás
a perceber?!” – E desatamos os dois a rir. O meu amigo achou que
estávamos a gozar com o filme e não nos falou durante duas semanas. A malta
cinéfila leva o David Lynch demasiado a sério.
Eu também levo. É de louvar uma pessoa que constrói uma
carreira, a fazer filmes que ninguém entende. Aliás, uma série de televisão
inteira, que ninguém entendeu e ninguém esquece. Saudade! Não iam fazer um
remake?
Há uns 10 anos atrás, lembro-me de estar a vegetar pelo sofá, quando li no jornal: “História Simples de David Lynch,
15:30, Gulbenkian”. Mal a comparado, esta informação no meu cérebro teve o
mesmo efeito que a frase: “Deus na praça do comércio! “, teria num ateu.
Gosto das histórias do David Lynch e se há coisa que sonho
desde sempre, era uma história simples, que eu conseguisse entender. Saltei
mesmo do sofá e fui em busca da história simples. No caminho ainda pensei pra comigo, se não seria publicidade enganosa? Algum intelectual da Gulbenkian… sabe-se
lá o que eles consideram uma história simples… Mas era mesmo. Até me vieram as
lágrimas aos olhos.
Tudo isto do David Lynch, para dizer o quê? Para dizer que
até ele, uma vez na vida, desceu à terra para fazer uma história com
princípio, meio e um final bonito. Será assim tão difícil?!